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terça-feira, 19 de agosto de 2008

♥ _õ/ ~ ~ ~ ♥

O agrimensor olhou a árvore.

— Faz pena — disse compassivo — botar tudo isso abaixo.

— Eu, por mim — disse Milkau, levado pelo mesmo sentimento —, preferiria um lote onde não fosse preciso esse sacrifício.

— Não há nenhum — respondeu Felicíssimo.

— O homem — notou Lentz a sorrir com ar de triunfo — há de sempre destruir a vida para criar a vida. E depois, que alma tem esta árvore? E que tivesse... Nós a eliminaríamos para nos expandirmos. E Milkau disse com a calma da resignação:

— Compreendo bem que é ainda nossa contingência essa necessidade de ferir a Terra, de arrancar do seu seio pela força e pela violência a nossa alimentação; mas virá o dia em que o homem, adaptando-se ao meio cósmico por uma extraordinária longevidade da espécie, receberá a força orgânica da sua própria e pacífica harmonia com o ambiente, como sucede com os vegetais; e então dispensará para subsistir o sacrifício dos animais e das plantas. Por ora nos conformaremos com este momento de transição... Sinto dolorosamente que, atacando a Terra, ofendo a fonte de nossa própria vida, e firo menos o que há de material nela do que o seu prestígio religioso e imortal na alma humana...

Enquanto os outros assim discursavam, Felicíssimo, no seu amor ingênuo à Natureza, mirava as velhas árvores, e com a mão meiga festejava-lhes os troncos, como os últimos afagos dados às vítimas do momento do sacrifício. Dentro da mata penetrava o vento da manhã e nas folhas passava brandamente, levantando um murmúrio baixo, humilde, que se escapava de todas as árvores, como as queixas surdas dos moribundos.





(Canaã – Graça Aranha)


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