sexta-feira, 2 de novembro de 2007
♥ Early Sunsets Over Monroeville
Nota: As duas histórias foram inspiradas em duas músicas e por isso dos títulos em inglês, porque são os nomes das músicas
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Paul, o melhor amigo dela, deve saber que fui eu e provavelmente vai me caçar até o fim do mundo, por isso procurei não deixar vestígios por onde passei, apesar de ter sido reconhecido umas duas ou três vezes, ninguém ligava os fatos, então não me preocupei muito com essas pessoas. As coisas começaram a ficar difíceis, o caso começou a ganhar fama e Paul não desistia, estava sempre na mídia, até o corpo dela o filho da mãe encontrou, ele é um ótimo policial.
Achei que o melhor a fazer fosse migrar por cidades grandes e tentar me esconder entre as multidões, mas estava errado, quanto maior a cidade, mais divulgado o caso era e meu sumiço começou a ser suspeito. Comecei a ficar perturbado, queria um lugar tranqüilo, onde ninguém me conhecesse ou pudesse ter qualquer relação com o meu passado, com as pessoas que conheci, com os lugares onde estive e morei. Com certeza, para um cara famoso como eu, tudo isso se tornou mais difícil, meu rosto aparecia com freqüência na televisão a partir do momento em que Paul convenceu seus superiores de que eu era o principal suspeito.
Tive sorte. As pessoas daqui são pacatas e não fizeram perguntas. Passados alguns meses, já havia me misturado a elas e procurei esquecer quem fui, de onde vim, o que fiz... Mas não consegui, não consegui apagar minha memória. Foi tudo muito intenso, não consegui esquecer tudo, não consegui esquecê-la. Parei de me arrepender, para ver se assim seguia em frente. Envolvi-me com uma ou duas moças por aqui, mas aqui as mulheres são todas muito parecidas com ela. Talvez fosse eu, ou talvez fosse ela a me assombrar, reproduzindo seu rosto entre os vivos, atormentando minha mente e embaralhando minhas idéias.
Parece que quanto mais eu tentava esquecer tudo, mais eu me lembrava...Agora mesmo, posso lembrar quando íamos ao Japão. Eu sempre dizia em entrevistas que o Japão era meu lugar favorito no mundo, mas na verdade era o lugar favorito dela. Ela o achava um país fascinante, e acabou fazendo com que eu também me fascinasse com a cultura e as pessoas do lugar. Lembro de andarmos de mãos dadas pelas ruas de Tóquio e de fazermos compras juntos. Lembro de desenhá-la entre as folhas de cerejeiras que caíam durante a primavera e assistir ao nascer do sol junto a ela. Ela dizia que o sol nascia primeiro no Japão e por isso aquele país era mágico.
Engraçado, mas às vezes eu penso que esse lugar me mudou de certa forma. Parei de beber, de viver na soturnidade, me tornei uma pessoa muito comum, muito tranqüila. Aposentei os calmantes e os filmes de horror, até o estilo musical que ouvia e produzia deixei de lado, comecei a ouvir o que as pessoas daqui ouvem. Às vezes via a mim mesmo como um zumbi, chegava a pensar que era um morto vivo, que fui contaminado pela convivência com essas pessoas e às vezes pensava que elas me fizeram nascer... Talvez eu estivesse apenas ficando louco e talvez essa calmaria não estivesse me fazendo muito bem!
Certa vez uma senhora ficou me encarando enquanto eu fazia compras no supermercado, acho que foi porque meu cabelo houvesse voltado completamente à cor natural e ela não tivesse me reconhecido, ou, talvez, pensando nisso e ligando os fatos, ela tivesse TV por assinatura...
Coisas estranhas começaram a acontecer a partir daí, as pessoas começaram a cochichar quando eu passava, a menina do caixa do supermercado evitava olhar para mim e a senhora Cole não me pedia mais para cuidar de Sissi, sua cadela poodle, quando ia ao bingo. Tentei perguntar às pessoas o que estava acontecendo, mas todas elas sorriam e diziam que estava tudo correndo normalmente. Eu deveria ter suspeitado, mas não achei que eles me encontrariam aqui.
Naquele dia, o sol se pôs mais cedo quando, do quarto, eu ouvi a porta abrir e fechar e peguei o meu revólver no fundo do armário. Fui até a sala e me assustei ainda mais ao ver aqueles homens fardados que, ao baterem o olho na minha arma, imediatamente empunharam as suas. Eu já não ouvia mais nada do que eles diziam quando mudei a direção para a qual apontava a arma. Na hora pensei em qual cabeça me exigiu mais coragem, se na minha ou na dela. Tudo já havia ficado fora de foco quando puxei o gatilho e caí ao chão...
Eu pensava que quando a gente morria com um tiro na cabeça era tudo muito rápido e indolor, mas aqueles milésimos de segundo passaram como se fossem horas.
As pessoas dizem que quando você morre a sua vida passa por seus olhos, mas acho que elas estavam enganadas, minha vida não passou por meus olhos, a única lembrança que me veio à mente foi a da noite em que ela morreu. Lembro-me ainda de ter pensado se ela teria sentido a mesma coisa que eu ao morrer, se teria sido assim com ela também. Eu empunhava a mesma arma e ela olhava para mim sem desviar o olhar uma única vez para o noivo dela, caído e ensangüentado no chão, ao seu lado. Ainda posso ouvir sua voz ao falar comigo e é como se aquelas lágrimas que via escorrendo por sua face rolassem na minha. Talvez eu devesse ter ficado chocado pela última coisa que ela me disse antes que eu puxasse o gatilho, antes que seus olhos ficassem vagos e manchados de vermelho, antes que seu corpo ficasse frio, assim como o meu está, aquilo que tornou tudo ainda mais difícil.
Acho que isso acabou me motivando a pensar que ela estaria esperando por mim no além, mas o além não é nada. O além não existe. Não há nada no inferno, nem no purgatório, nem no suposto céu. Minhas memórias me derrotaram e fizeram com que essa terrível história virasse cinza e que essa fatalidade que comecei ganhasse, comigo, um ponto final. Agora aquelas palavras não significam nada, não passam de sujeito, verbo e objeto, componentes de tantas frases perdidas no universo.
Nesse vazio e nessa escuridão em que me encontro isso não significa nada, mas continua a ser minha prisão, as moedas parecem não ter sido entregues ao cocheiro do meu carro fúnebre, e ele me deixou aqui, a ser banhado por essas fontes de água fria onde todas as gotas de água ecoam as três palavras ditas por ela naquela noite, e que vou levar à eternidade comigo: “Eu amo você”.
3 I AM GRUMPY.
postado por Andyàs11/02/2007 06:14:00 AM



